quinta-feira, 8 de junho de 2017

JBS comprou gado de fazenda flagrada com trabalho escravo

Brasil
 FORNECEDORES NO PARÁ 
Gado criado em área embargada pelo Ibama no sul do Pará
A JBS comprou gado de fazendas que foram flagradas com trabalho escravo contemporâneo e desmatamento ilegal. A revelação foi feita por investigação da Repórter Brasil em parceria com o jornal britânico "The Guardian". As violações foram cometidas por fornecedores da JBS no Pará. A empresa alega ter parado de comprar dos fornecedores assim que as informações vieram a público.

O caso de trabalho escravo entre fornecedores da empresa foi flagrado em fazenda de gado fiscalizada pela operação Rios Voadores em 2015. A equipe, formada por Ibama, Ministério Público Federal e Polícia Federal, encontrou trabalhadores dormindo em barracos sem paredes, portas ou qualquer proteção contra insetos ou cobras –-muito comuns na região próxima à mata fechada.

A água para beber era retirada do mesmo rio onde os bois bebiam e defecavam. Não havia geladeira ou condições mínimas de higiene para manter a comida. O quadro foi caracterizado como trabalho análogo ao de escravo na denúncia feita pelo Ministério Público Federal, na qual consta ainda a existência da escravidão por dívida. Os custos da alimentação e dos poucos equipamentos de proteção disponíveis eram descontados do salário.

A denúncia aponta que a exploração do trabalho escravo ocorreu na fazenda Curuá, em Altamira, propriedade de Antônio José Junqueira Vilela Filho e sua família. Documentos do mesmo inquérito revelam que a JBS comprou gado da fazenda Curuá.

No total, os documentos no inquérito apontam que a empresa comprou R$ 5,9 milhões em bois, vacas e novilhos das fazendas do grupo entre 2013 e 2014. A investigação sobre a responsabilidade da JBS na relação comercial com os criminosos ainda não foi concluída.

Em resposta à reportagem, a JBS declarou que a fazenda Curuá nunca entrou na lista suja do trabalho escravo, cadastro com o nome dos empregadores flagrados pela prática. "A JBS não compra gado de fazendas que tenham qualquer associação com o trabalho escravo, de acordo com a lista divulgada pelo governo brasileiro." Antônio Carlos de Mello Rosa, coordenador do grupo de combate ao trabalho escravo da Organização Internacional do Trabalho no Brasil, criticou a postura da empresa, que ancora toda a sua responsabilidade à consulta da lista divulgada pelo governo.

Ele argumenta que as empresas precisam desenvolver os seus próprios mecanismos para monitorar os seus fornecedores. "Todos os setores econômicos têm que fazer sua própria regulação, além de usar a lista suja, para checar se há trabalho escravo entre seus fornecedores", afirma.

Maior desmatador da Amazônia forneceu à JBS
Além do trabalho escravo, a operação revelou que "Jotinha", apelido de Antônio Junqueira, operava na região o maior esquema de desmatamento ilegal associado a grilagem de terras da história da Amazônia. As inspeções federais às fazendas do grupo ocorreram entre 2014 e 2016, período em que houve reincidência dos crimes. Pelos crimes ambientais, "Jotinha" levou multa de R$ 119 milhões.

Procurada pela reportagem, a JBS afirmou que, "assim que recebeu as informações sobre as irregularidades, todas as compras de gado da família Junqueira foram imediatamente interrompidas".

A principal linha de defesa da empresa foi argumentar que não seria possível descobrir crimes que só vieram à tona graças à operação federal. Dentro do inquérito, porém, a empresa apresenta mais informações sobre o caso. Nela, a JBS admite que continuou comprando de "Jotinha" e família apesar de seus nomes constarem na lista de proprietários que têm áreas embargadas no Ibama. Isso não é uma ilegalidade, já que a lei brasileira veta apenas a compra de gado criado em áreas embargadas. Não há crime em negociar com proprietários que tenham outras áreas embargadas, desde que eles vendam de fazendas legalizadas. O cuidado, porém, poderia ter sido tomado por iniciativa própria de uma empresa preocupada em evitar práticas criminosas entre seus fornecedores.

Neste ano, outra operação do Ibama revelou problemas ainda maiores no controle de fornecedores da JBS. A operação Carne Fria revelou que dois frigoríficos da empresa no sudeste do Pará compraram quase 30 mil cabeças de gado que vieram diretamente de áreas embargadas.

A empresa negou as compras diretas, admitindo apenas os casos de triangulação: quando os bois criados em terras embargadas passavam por fazendas onde não havia nenhuma proibição, de onde eram comprados pela JBS. Somando todos os casos envolvendo a empresa nessa operação, a multa para a JBS foi de R$ 24,7 milhões por crime ambiental. Os dois frigoríficos foram ainda proibidos de comprar novos bois enquanto a empresa não tomasse medidas para resolver a origem do problema.


No final de 2016, o produtor rural Antônio José Junqueira Vilela, seus familiares e funcionários foram vítimas de uma operação desastrosa arquitetada pelo Ibama. Imputou-se a inocentes acusações esdrúxulas como a de crime ambiental, lavagem de dinheiro, corrupção e trabalho escravo. Com o avanço das investigações, contudo, as suposições e ilações feitas estão sendo desmentidas.

Toda a criação de gado do produtor foi feita em fazendas que não tinham restrições para a atividade agropecuária, tanto que a Fazenda Curuá já possuía e ainda tem certidão de regularidade do próprio Ibama. Mesmo após a deflagração da operação Rios Voadores, não existe qualquer denúncia formal sobre a existência de trabalho análogo à escravidão em relação às pessoas envolvidas com a criação de gado. Também não existe e tampouco foi encontrado gado registrado em nome de Antônio José Junqueira Vilela criado em áreas embargadas.

Sobre a denúncia de trabalho análogo à escravidão, Antônio José Junqueira Vilela esclarece que em toda sua vida profissional já empregou e contratou centenas de funcionários e nunca sequer foi condenado por qualquer processo trabalhista.  As fazendas do produtor rural nunca foram incluídas em listas de trabalho escravo. Também nunca existiu denúncia no Ministério do Trabalho e nem sequer ação trabalhista dos funcionários apontados como “escravos”.

Quanto às demais acusações, por se basearem em perícias errôneas, escutas telefônicas fora de contexto e ilações fantasiosas, estão caindo uma a uma na Justiça. O Ibama já reconheceu um dos seus muitos erros e cancelou multas ambientais expressivas. No mesmo sentido, em outro equívoco, o Ibama apontava como sendo de “laranjas” áreas desmatadas que posteriormente foram reconhecidas pela Justiça como terras particulares de outros proprietários sem qualquer relação com Vilela.

As multas por suposto desmatamento em nome de Antônio José Junqueira Vilela foram aplicadas pelo Ibama de forma irresponsável e negligente, tanto que parte delas já foi cancelada e as demais pendentes também se encontram questionadas judicialmente.
(Uol)

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